E SOUBE por uma amiga que as águas de Copacabana são muito gélidas, até no verão. Ela não suporta o frio, a adoece. Sinusite ou qualquer coisa que o valha, a tira literalmente de tempo. Mas o que a tanto incomoda? Um friozinho muitas vezes é bom, bem-vindo. Traz aconchego e estando com uma desejosa companhia, aí sim as coisas podem melhorar e muito. Mas ela detesta o frio. Então também deve detestar a praia mais famosa dessa terra brasilis, talvez até deteste, mas nada vai impedir d’ela conhecer. Quer e pronto. Uma passeada em seu calçadão, ela caminha devagar seguindo as ondas majestosas das pedras portuguesas, parecia jogar amarelinha. Uma foto aqui, um retrato acolá, de repente, um andar leve, parecia até estar se amostrando para alguém. Será? Mas será possível? Ou era para mim? Seus passos leves e emplumados era uma saudação àquele bem-dito momento, apesar de uma pequena dor no calcanhar. Nada de seu ninguém, ela queria saber só e somente só dela. Olha ao longe, pergunta se é o Pão-de-Açúcar, respondo que sim. Um belo sorriso surge e seus cabelos cacheados flutuam no sentido do cantinho da boca, superlativizando o gesto, a brisa, a paisagem, tudo.
Mas ela não gosta de frio! O que fazer para esconder aquela frente fria? Não há bisaco em que eu a entoque, nem que quisesse. Mais alguns passos, ela vê, logo à sua esquerda, um suntuoso prédio branco com bandeiras tremulando em sua sacada, o famoso Copacabana Palace. Só então ela me pega pelo braço: “Co-pa-ca-ba-na Palaceeee? Meu Deus. Será que Jorge Benjor (morador ilustre) tá aí?”. Duvido muito, respondi contrariado. Lembrei que desde quando combinamos a viagem e no pacote estava um hotel no bairro de Copacabana, ela ficou eufórica em estar n’aquele lugar que tanto viu na tevê. É quando decide que ali quer ficar, defronte ao majestoso hotel. Pois bem, vamos procurar um anteparo, uma barraca de praia que nos supra do que precisar.
Tiramos as sandálias, sentir aquele lugar fazia parte. Uma caminhada n’areia e ela logo comenta: Que chão frio Jesus! Imagine a água? Ao mesmo tempo em que sacode os braços como a espantar neve. Cadeiras, quase espreguiçadeiras, expostas; cada um em seu assento. Ela põe o chapéu como a disciplinar suas longas madeixas escuras que até então estavam ao sabor do vento. Põe óculos escuros, mais um charme do que diminuição da claridade, já que sempre à falar comigo, descia-os até a ponta do nariz, uma maneira de me ver melhor. Uma selfie em seu smartphone, não funcionou. A segunda, também não. De onde eu estava, fotografá-la seria a situação ideal. Resolvi atender a seus apelos. Pelo menos uns vinte retratos quase que totalmente iguais. – É assim mesmo, eu escolho uma. Uma? Somente? Indaguei. Cá com meus botões, se fosse no tempo da foto em filme de no máximo 36 poses, ela não se estiraria tanto.
Mais alguns minutos, uma nesga de sol apareceu e nos encorajou – pelo menos a mim – a cair n’água, “salgar a matéria”, como sempre repete meu querido amigo Agenor da Vila do Joàseiro, lá na Parahyba do Norte. Imaginei ela se vestindo daquele sol, respirando fundo aquela brisa marinha, mergulhando e surgindo, apartando o resto de água do rosto e repartindo seus lindos cabelos escuros, e as pestanas molhadas em fartos olhos, fitando meu admirar, claro, antecipando um sorriso de felicidade. Ombros molhados, maiô também, embora nem tão discreto assim, um verde-limão que cisma em não se perder, mas não a perderia de vista, jamais.
Volto desse pensamento (ou seria desejo?) encantador e murmuro: – Meu bem, que mar, ondas beijando a areia dourada, vamos mergulhar? Seu semblante muda de imediato: – Eu? Essa água deve estar à zero grau. Cadê os quarenta graus de Fernanda Abreu? Deus que me livre! Se pelo menos fosse morna como as águas de Lucena, até que eu toparia. Em outro dia bem ensolarado quem sabe.
Fito o sol, o céu, o Pão de Açúcar, a praia do Leme, quem nos circunda, respiro fundo aquele ar salobro enquanto um navio de carga passa ao longe. Penso que iria cantarolar “Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça...” repetindo os versos de Jobim, não em Ipanema, mas na vizinha Copacabana. E o que é que me resta diante dessa minha quase garota de Copacabana? É afogar todo o meu desejo e divagação em um gelado copo de cerveja.
Veja também as crônicas:
'Impressões da Cidade Maravilhosa no link ,'
Lapa boêmia' no link
'Cristo Redentor' no link
e 'Ah, Santa Teresa' no link
Leia, curta, comente e compartilhe com quem você mais gosta! Publicado na coluna 'Crônica em destaque' no Jornal A União em 26 de novembro de 2022.
Eu me encho de orgulho ao ler as crônicas do Professor Thomas, diga-se de passagem, meu filho! Sou suspeito em falar, mas a facilidade que ele tem de traduzir em palavras, em descrever lugares ou situações é de uma singeleza singular, faz com que a gente atice a imaginação, viaje naquelas palavras, viva aquele momento, ou esteja naquele lugar, me pego as vezes relendo várias crônicas dele e sinto uma evolução a cada escrita, não sou expert , nem mesmo intelectual, mas no meu universo de conhecimento, duvido que exista melhor do que ele!
Tenho dito!!!
Paulo Roberto.
As crônicas de Thomas Bruno sempre são bem escritas e gostosas de ler, mas essa merece o Prêmio Braulio Tavares de Qualidade (que é tipo o Jabuti sem a premiação em dinheiro. Ainda...)
Apesar de o texto todo ser milimétrico (os 90 de transpiração e os 10 de inspiração), um trecho em particular me dominou, me comoveu, sequestrou minha visualização imaginativa por uns instantes, pela poesia, pelo tato verbal...
Foi este abaixo:
"Um belo sorriso surge e seus cabelos cacheados flutuam no sentido do cantinho da boca, superlativizando o gesto, a brisa, a paisagem, tudo".
Bom Dia Professor Thomas!
É ai que eu repito a frase: - As praias nordestinas são incomparáveis!
Viva o Nordeste!